• Natália Jorge

FFT: Mais Chef's Table, menos Final Table

The Final Table é um reality de gastronomia no estilo Masterchef Profissionais, mas com chefs premiados – alguns até com estrelas Michelin – de vários países, e eles disputam as provas em duplas.


Cada episódio é dedicado à culinária de um país. Na primeira parte, as duplas devem preparar um prato típico e passam pelo crivo de 3 personalidades locais: duas celebridades e uma crítica gastronômica. Ao final, as duplas com os piores pratos disputam uma nova prova, desta vez valorizando um ingrediente escolhido por um grande chef e avaliador daquele país, e a pior dupla é eliminada.


No episódio do Brasil, por exemplo, a primeira parte foi dedicada à feijoada e avaliada por Bebel Gilberto, Alessandra Ambrósio e Josimar Melo – crítico da Folha. Já a segunda prova teve como tema a mandioca, escolhida e avaliada pela chef Helena Rizzo, do Maní.


Helena Rizzo no Final Table, do Netflix

No último episódio, as duas melhores duplas se separam e competem individualmente, devendo, cada participante, elaborar um prato que o defina como chef. A prova final é avaliada por todos os chefs convidados anteriormente e o vencedor ganha, além da visibilidade, a consagração de poder se sentar à mesa junto aos outros chefs.


Seria trágico se não fosse cômico. Como disse a Meire Kusumoto aqui, vários dos participantes se igualam, em premiação, aos chefs da mesa, de modo que esse status não convence o espectador.


Não é que o programa seja uma total forçação de barra. Há sim aspectos interessantes, como a promoção de diversas culturas por meio dos pratos típicos e a exposição do belo trabalho de chefs até então desconhecidos do grande público. Os pratos apresentados são verdadeiras obras de arte e é envolvente perceber como cada um concebe seu prato, com muito conteúdo e história por trás das técnicas e ingredientes (eu amei muito o Charles Michel).

Charles Michel (francês-colombiano) estudou no Instituto Paul Bocuse, em Lyon, e é chef no laboratório de pesquisa em ciência do gosto e da percepção, na Oxford

O programa peca, contudo, em alguns (vários) pontos. Primeiramente, a edição incomoda. É daquelas rápidas e com vários cortes e luzes, o que, muitas vezes, impede que o espectador realmente entenda o complexo prato por trás da tela, principalmente nos primeiros episódios, que têm mais competidores. Não sinto esse incômodo no Masterchef, por exemplo, talvez por ser um programa mais longo ou, simplesmente, pelos pratos apresentados demandarem menos explicações.


Em segundo lugar, no campo roteiro, senti falta de ouvir críticas mais construtivas sobre os pratos apresentados, coisa que o Masterchef também faz com melhor desenvoltura. Como, na primeira prova, dois dos juízes são “amadores” (ainda que acostumados com a boa gastronomia), não há muito conteúdo por trás das avaliações. Até na segunda prova, diante do chef perito naquele ingrediente, as críticas não são tão robustas, neste caso por pura opção da direção do programa, já que, com certeza, os chefs convidados têm muito conhecimento.


Em terceiro lugar, o programa não prende tanto a atenção do espectador como o Masterchef, pois o formato das provas é sempre constante e falta um elemento surpresa. Parte disso deve-se ao alto nível dos chefs participantes, que talvez não se submeteriam a joguinhos e a provas mais imprevisíveis. Apesar dessa ressalva, a produção poderia ter sido mais criativa, principalmente lidando com chefs que têm a criatividade como nome do meio.


Outro fator que faz o espectador desapegar do programa é a dúvida sobre a veracidade das provas. Em várias ocasiões tem-se a impressão de que as provas são combinadas previamente e um dos motivos para isso é o fato de o mercado possuir todo tipo de ingrediente, até os mais raros, frescos e sazonais. Em nenhum momento o competidor pensa em um prato e não encontra o ingrediente necessário (isso já seria um elemento surpresa interessante). Regras do jogo mais claras talvez dirimiriam essa percepção, deixando o programa mais cativante.


A presença de plateia, o palco hipertecnológico e o apresentador Andrew Knowlton também não convencem e contribuem para a sensação de artificialidade do programa.


Andrew Knowlton e o jogo de luzes

Por fim, e com spoiler, nem a escolha do vencedor convenceu. Não é que Timothy Hollingsworth (EUA) seja ruim: é impossível duvidar das habilidades culinárias de qualquer dos chefs participantes, mas seu prato vencedor foi:


Bacalhau negro cozido lentamente, mousseline de batatas com pó de batata e cinzas de alho poró, amêijoas do pacífico e amêijoas mercenárias, purê de cebolas chamuscadas com cebolas grelhadas enriquecidas com caldo de amêijoa e tempero Maggi.


Isso mesmo: (...) e tempero Maggi. TEMPERO MAGGI?


Sem mais.


(Se quiser mais uma review interessante sobre o programa, do ponto de vista de gênero, veja: https://www.lamag.com/digestblog/final-table-netflix/)

© 2019 COMIDA DE COMER - Natália Jorge

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